Voltar para Guitarra erudita (Bach) - Curso de Violão e guitarra - USC (BAURU-SP) - 2006.
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Anatomia de uma fuga/
Análise de fugas

Timothy Smith
http://jan.ucc.nau.edu/~tas3/bachindex.html
  

(tradução e adaptação - Marcelo Mello)

 

 

I. DEFINIÇÃO DE UMA FUGA 

Procedimento polifônico que envolve um número especificado de vozes nas quais uma frase (assunto) é exposta, em cada voz, em uma relação inicial de tônica/dominante, desenvolvida depois de maneira contrapontística. 

II. CARÁTER DE UMA FUGA 

Uma fuga geralmente consiste ou em uma série de exposições e desenvolvimentos sem número fixo. Em sua forma mais simples, uma fuga poderia consistir em uma exposição seguida por um desenvolvimento opcional. Uma fuga mais complexa poderia seguir a exposição com uma série de desenvolvimentos, ou outras exposições seguidas por mais desenvolvimentos. Fugas centradas num ambiente tonal exporão os sujeitos sem se aventurarem para além de uma configuração inicial de tônica/dominante. 

III. PARTES DE UMA FUGA 

A. IDÉIA PRINCIPAL DE FUGA  

1. Sujeito: Melodia que inclui o material de melódico/rítmico primário da fuga. Sujeitos têm tipicamente duas partes: a "cabeça" é calculada para ou chamar a atenção para um ritmo incomum ou para a ênfase em um arelação intervalar, enquanto que a "cauda" é tipicamente mais conjunta, uniforme ritmicamente, e às vezes de cartáter modulatório. A cabeça e/ou a cauda podem empregar variações de um ou dois motivos menores, cada um deles formado por um intervalo e/ou ritmo característico. 

2. Resposta: Imitação que imediatamente segue a primeira declaração do sujeito, em uma voz diferente e normalmente num intervalo de quinta acima do sujeito original. Respostas são uma subdivisão de classe dos sujeitos, que suportam certas características de intervalo em relação ao sujeito original. 

* Resposta tonal: Uma resposta que tipicamente (entretanto não sempre) fica na mesma tonalidade que o sujeito. Para isto, é necessário mudanças em alguns dos intervalos do sujeito. Em uma resposta tonal a tônica e a dominante trocam de posições: A posição ocupada pela tônica, no sujeito, torna-se a dominante na resposta, e vice-versa. 

Técnica analítica: Sujeitos que têm muitos saltos (disjuntos) focalizados nos graus de tônica e dominante geralmente se prestam a uma resposta tonal. 

* Resposta real: Uma resposta da que é uma transposição do sujeito para outra tonalidade, normalmente a dominante. 

Técnica analítica: Sujeitos que têm principalmente graus conjuntos, não focalizados na tônica ou na dominante, se prestam a uma resposta real. 

3. Countrasujeito: Figura importante que por vezes ocorre periodicamente em uma fuga, seguindo-se imediatamente ao sujeito ou à resposta (na mesma voz). Contrasujeitos servem como contraponto a sujeitos (ou respostas), soando simultaneamente a eles em uma voz diferente. Nem toda fuga terá um contrasujeito. Algumas fugas podem ter mais de um contrasujeito. 

4. Falso Sujeito: Alguns teóricos usam o termo "falso sujeito" para descrever uma entrada do sujeito (ou resposta) sem seu final característico. Este termo deveria ser reservado para exemplos onde o sujeito parece começar, se interrompe, e então segue imediatamente com uma exposição completa. A maioria dos outros exemplos de sujeitos incompletos é relativa ao desenvolvimento, e deveria ser chamada de "imitação". 

B. SEÇÕES PRINCIPAIS DA FUGA

1. Exposição: Parte(s) da fuga que consiste em sujeito(s) com pelo menos uma resposta, e possivelmente contrasujeito(s). Para ser qualificada como uma exposição, o sujeito (ou resposta) tem que aparecer em todas as vozes e respostas, e deve haver uma relação própria (tonal ou real) entre as entradas do sujeito. A exposição regularmente conclui imediatamente depois que o sujeito (ou resposta) apareça na última voz. As exposições podem adiar sua cadência até depois de um codetta. Uma diferenciação entre tipos de exposição pode ser baseada na ordem na qual as vozes entram (como comparada à primeira exposição) e se o sujeito mudou ou não. 

* Re-exposição: Uma exposição, seguindo a exposição inicial, na qual as vozes entram na mesma ordem que a primeira exposição. 

* Contraexposição: Uma exposição que segue a exposição inicial na qual as vozes entram em uma ordem diferente da que elas fizeram na primeira exposição; ou então, o sujeito da exposição nova é uma variação contrapontística da original. 

* Dupla Exposição: Exposição que utiliza um sujeito inteiramente novo (i.e. não derivado contrapontisticamente do primeiro). Se o sujeito novo for único, então a fuga é uma fuga dupla (ou, no caso de três sujeitos, fuga tripla). 

2. Episódio de desenvolvimento (ou "divertimento"): Seção na qual são tratados os motivos da exposição com seqüências, modulações, movimentos contrários, contraponto duplo, strettos, augmentação/diminuição, pedais etc. Episódios geralmente são terminados por uma cadência e podem se seguir um após o outro. Episódios começam caracteristicamente partindo do sujeito, fragmentando-o ou variando-o de algum modo, mas construindo gradualmente uma reafirmação do sujeito em pelo menos uma voz. Estas declarações do sujeito não estão tipicamente na relação de tõnica/dominante da exposição, e são chamadas "entradas medianas" (ou Durchführung, em alemão). Episódios típicos não enunciam o sujeito em todas as vozes. 

3. Coda ou Codetta: Segmento final de uma seção (codetta) ou da fuga inteira (coda). Codas e codettas soam freqüentemente como se fossem um trecho acrescentado depois do fim estrutural da seção. A função de uma codetta é freqüentemente modulatório (trazer a peça de volta à tonalidade do sujeito depois de uma resposta na dominante). Nem todas as fugas têm estes elementos. 

IV. TÉCNICAS COMPOSICIONAIS DE UMA FUGA 

A. VARIAÇÃO TONAL 

1. Modulação: Repetição de um motivo em outra tonalidade. Bach tipicamente organiza suas fugas ao redor de tonalidades proximamente relacionadas entre si (tnalidade e tons menores imediatamente adjacentes um ao outro no ciclo das quintas). 

2. Mutação (também chamada "mudança de modo"): Declaração do sujeito ou resposta (ou qualquer outro material primário) no modo homônimo (maior ou menor). 

B. VARIAÇÕES CONTRAPONTÍSTICAS 

1. Stretto: Entrada de um motivo em uma segunda voz antes de a primeira voz terminar sua enunciação. Motivo, no caso, pode tanto significar sujeito, quanto resposta, contrasujeito, ou qualquer outra importante entidade melódico/rítmica em imitação. 

2. Aumentação/Diminuição: Declaração de um motivo em durações rítmicas que são proportionalmente dobradas ou diminuídas pela metade. 

3. Pedal: Suspensão de uma nota, freqüentemente o baixo ("baixo pedal"), de tal maneira que é alternadamente consoante e dissonante com a progressão de acordes. Fugas concluem freqüentemente com episódios em pedal. 

4. Retrógrado: (raro) Declaração das notas do motivo em ordem inversa. 

5. Inversão melódica: (Movimento contrário) Declaração de um motivo onde direções intervalares são feitas na direção oposta do motivo original. Se a qualidade dos intervalos é preservada, diz-se que o movimento é uma " inversão em espelho". 

6. Seqüência: Repetição de um motivo em outro nível de altura musical, normalmente um grau acima ou abaixo. Cada repetição é chamada de "perna" (???). As seqüências de Bach tendem apresentar duas ou três "pernas", cada uma incluindo duas unidades subsidiárias. Seqüências raramente aparecem nas exposições de uma fuga, mas são freqüentes em episódios de desenvolvimento. 

7. Inversão contrapontística: (Contraponto de Double/Triple) Reaparição de um par de vozes (ctpt dobro.) ou trio de vozes (ctpt triplo.) na qual foram os registros foram rearranjados de tal modo que as vozes se invertem, e a relação de intervalo entre vozes é fundamentalmente alterada. 

a. Tipos de Inversões contrapontísticas: 

* À oitava: Quartas se tornam quintas, uníssonos se tornam oitavas, etc. 

* À décima (8va+3ª): o movimento paralelo tende ser evitado completamente. Isto porque intervalos aceitáveis em uma textura (por exemplo 3as e 6as) tornem-se inaceitáveis quando invertidos (8vas e 5as). 

* À décima-segunda (8va+5ª): Com a exceção das 3as (que permanecem 3as), movimentos paralelos aceitáveis tornam-se inaceitável quando invertidos à 12ª.

b. Como Calcular Tipo de Inversão contrapontística: 

* Determine o intervalo no qual a voz mais grave foi movida PARA CIMA. 

* Determine o intervalo no qual a voz mais aguda foi movida PARA BAIXO . Nota: se as vozes não trocaram registros, a melodia da voz mais alta tornando-se a melodia da voz mais grave e vice-versa, então não ocorreu inversão contrapontística. 

* Se os passos 1 e 2 são oitavas, então o contraponto duplo está à oitava. Caso contrário, some os resultados de passos 1 e 2, então subtraia 1. 

V. COMO ANALISAR UMA FUGA

1. Há quantas seções e em que compasso elas começam e terminam?
Técnica de análise: procurar por cadências

* Nem toda cadência representa o fim de uma seção, mas toda seção termina com uma cadência.

* Seções cadenciam tipicamente em tonalidades próximas à tonalidade principal (com um sustenido ou bemol, a mais ou menos, no ciclo das quintas).

* No contexto do século XVIII, predominam cadências perfeitas (V-I), cadências imperfeitas (?-V) e de engano (V-VI) aparecem com menos freqüências, e cadências plagais (IV-I) aparecem raramente. 

* Cadências fugais são difíceis de serem reconhecidas porque o compositor não faz um apausa ou nota longa no acorde cadencial; normalmente o movimento melódico e contrapontístico continua diretamente para a seção seguinte. As cadências são freqüentemente elididas, isto é, o acorde cadencial funcional como o último acorde de uma seção e o primeiro acorde da próxima.

2. Qual é a função de cada seção?
Técnica de análise: determinar se a seção expõe, desenvolve ou conclui material. 

A. Exposição
Técnica de análise: marque todas as ocasiões em que a idéia (motivo) principal é anunciada ou respondida. 

* Já que a exposição "expõe" material novo, todas as fugas começam com uma exposição. No sentido de que a exposição contém o mesmo sujeito enunciado e respondido em todas as vozes, a exposição é a seção mais bem definida de uma fuga. O sujeito pode aparecer em qualquer ordem de vozes, mas nas fugas de Bach o baixo costuma ter a última entrada. 

* Quanto o sujeito é respondido em uma segunda voz, a primeira pode continuar com um contrasujeito. Marque todas as suas aparições, quando existirem. 

* Fugas podem ter mais de uma exposição. Para ser quailificada como uma exposição, o sujeito deve aparecer em todas as vozes, e na relação intervalar prescrita na primeirta exposição (real ou tonal). Em uma re-exposição, o sujeito principal aparece na mesma ordem de vozes; numa contra-exposição, o sujeito principal aparece numa ordem diferente de vozes. Uma dupla-exposição consiste da exposição completa de um segundo sujeito (fuga tripla=três sujeitos etc.) 

B. Episódio de desenvolvimento
Técnica de análise: indique toddos os tipos de elaboração contrapontística.

* Possíveis técnicas contrapontísticas incluem:> aumentação/diminuição, inversão melódica, inversão contrapontística, pedais, modulações, seqüências, strettos, cânones, imitação simples, permuta rítmica e melódica, fragmentação (separação da cabeça e da cauda do sujeito), afirmações incompletas do sujeito (falso-sujeito). 

C. Seções de conclusão
Técnica de análise: procure por seções que soem como se estivessem de aproximando do final.

* Um trecho que conclui uma seção de exposição ou desenvolvimento é chamada de "codetta". Codettas soam como se fossem anexadas após o final estrutural de uma seção. Elas raramente duram mais do que um ou dois compassos. 

* Mais comum é o aparecimento de "codas", que indicam a conclusão da fuga. Codas freqüentemente modulam para a atonalidade de subdominante, contém strettos, visitam uma última vez o sujeito principal (geralmente no baixo) e empregam pedais. 




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